Ela fala, fala, fala... E fala. E quanto ela corre... E aquele joelhinho que não sei como agüenta? E aquela canelinha que vive marcada? E como ela sorri. Aquele sorriso tá cada dia mais lindo. Ah! E aquela boquinha que não cresce. E continua linda... Já pediu um celular. Acha que já é grande. Mas como cresceu... Ela tá linda demais. O cabelinho finalmente crescendo e tomando forma. Aqueles olhos espertos que não perdem um movimento. Que fotografam qualquer cena. Ela se veste todos os dias de princesa. Todos os dias! Haja fantasia... Não, não. Ela acredita piamente que é uma princesa de verdade. E eu concordo. Ela é linda demais... Ela continua sendo atriz: finge que ri, que chora, que é brava e que esta triste. Somente eu não consigo fingir: caí de amores logo ali na maternidade. E vivo de amor por essa boneca...
Já tem quase um ano de pandemia, nós duas isoladas em casa e eu descubro que você tem 85 anos. Aprendeu bordado e boneca abayomi com o grupo da terceira idade do SESC. Remenda as minhas roupas. Usa a internet para pesquisar receitas e conjuntos de panelas, para aprender como organizar gavetas e a melhor forma de dobrar pijamas. Tá certo que pesquisa também penteados e como fortalecer unhas e hidratar cabelos. Gostamos das mesmas músicas: eu danço trap/rap e você canta Nina Simone (e este é apenas 1 exemplo). Prefere fazer seus exercícios manuscritos a digitados. Não sabe mexer no computador, perde a paciência com tantos comandos. Não enxerga nada sem os óculos, e, vira e mexe acredito que esta ficando meio surda também. Você faz o melhor pão do mundo. Sova a massa tagarelando e reclamando como uma boa velhinha. Usa um avental amarelinho e uma colher de pau que já foi da sua avó. E virou minha mãe, porque toda tarde eu faço manha para conseguir que faça Browne pra mim com o dobro de...
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