Ontem fiquei te observando, filha. Eu vi que os seus olhos e a sua boca são dele, e que sua testa e seu nariz são meus. E que você dorme igual a ele e acorda igual a mim. Os seus dentes são meus, mas o sorriso é todinho dele. Lembrei-me que o seu gênio forte é todo dele, mas que o seu bom humor é meu. Seus cabelos ondulados são uma mistura inteligente dos meus com os dele. A sua agilidade, perspicácia e destreza, confesso, são dele. Mas a doçura que tempera tudo isso é minha. É filha, você é uma mistura inteligente e perfeita de nós dois. Você é uma pintura divina que se fez gente através do amor. Você é única. Você é o nosso amor, filha.
Já tem quase um ano de pandemia, nós duas isoladas em casa e eu descubro que você tem 85 anos. Aprendeu bordado e boneca abayomi com o grupo da terceira idade do SESC. Remenda as minhas roupas. Usa a internet para pesquisar receitas e conjuntos de panelas, para aprender como organizar gavetas e a melhor forma de dobrar pijamas. Tá certo que pesquisa também penteados e como fortalecer unhas e hidratar cabelos. Gostamos das mesmas músicas: eu danço trap/rap e você canta Nina Simone (e este é apenas 1 exemplo). Prefere fazer seus exercícios manuscritos a digitados. Não sabe mexer no computador, perde a paciência com tantos comandos. Não enxerga nada sem os óculos, e, vira e mexe acredito que esta ficando meio surda também. Você faz o melhor pão do mundo. Sova a massa tagarelando e reclamando como uma boa velhinha. Usa um avental amarelinho e uma colher de pau que já foi da sua avó. E virou minha mãe, porque toda tarde eu faço manha para conseguir que faça Browne pra mim com o dobro de...
Que jeito mais liiiindo que vc escreveu da sua filhota! Me emocionei muuuito! Deve ser ótimo ter uma continuação de dois seres que se amam.
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