terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mamãe-Vovó

Minha bonequinha, essa noite você me perguntou que dia que a vovó volta. Você não entendeu nada não é mesmo? Também não entendo muito bem isso. Como pode uma pessoa ir e não voltar nunca mais? Não sei se minha resposta te convenceu, só sei que você me respondeu com uma noite inteira de febre. É assim que você sofre, não é boneca? Sempre foi assim. Na primeira vez que sua vó saiu sem você, foi uma febre que durou exatamente o tempo em que ela ficou fora. E sarou no momento em que você a viu de novo. Em março deste ano, quando sua vó internou, outra febre. Aliás, várias. E vômitos e olheiras nesses olhinhos lindos. E um coraçãozinho cheio de saudade que só se acalmou, meses depois, no dia em que, por alguns minutos, autorizaram sua entrada no hospital. E você a viu, a beijou e até se emocionou. É, eu vi seus olhinhos lacrimejando. Você estava tão anciosa para ver a mamãe-vovó que toda vez que a porta se abria, achava que já era a hora de entrar e vê-la. Agora, meu amor, não sei quando essa febre de saudade vai passar.. Não sei mesmo. Não sei nem se passa. Mas ela deixou você de companheirinha pra mim. E entre uma internação e outra, vocês tiveram tempo de matar a saudade. E mesmo sem saber, de se despedir. Você fazia cafuné, segurava a mão, dava remédio, dava frutinha e ajudava a fazer pequenos curativos. Você foi a melhor enfermeirinha que ela teve nos seus últimos dias. Ansiosa, você não queria deixar que ela perdesse nada. Pediu outra festa de aniversário quando a vovó chegou. Só pra comemorar junto com ela. Andou de bicicleta no quarto pra provar que já tinha aprendido. Leu pra ela e mostrou que já sabia ler direitinho. Dançou pra ela as músicas das festas da escola que ela não foi. Se fantasiou pra ela. Todo dia vestia uma roupa nova só pra ficar bonita pra vovó.

Amorzinho, mamãe já tentou te explicar... No dia 19 deste mês, naquele domingo em que você insistia em me perguntar o que tava acontecendo? Pois é, você estava prevendo algo. E não era algo bom, mas tinha que acontecer. Vovó viveu por 79 anos, terminou de criar todos os filhos, ajudou a criar e educar todos os netos, conheceu dois bisnetos, viajou por todos os lugares que foram possíveis, aconselhou e deixou lições de vida para todos, incluindo você. Vovó viveu tudo que tinha para viver, mas nós egoístas como somos, queríamos mais dela. Mas Papai-do-Céu não deixou. Ele não queria ela aqui sofrendo, tendo que depender das pessoas, sem poder curtir direito principalmente a "Tutuca" dela. Ouso dizer, sem querer menosprezar os outros netos, que a Tutuca foi (e é) o grande amor da vida dela. Com você ela conversava desde que estava na minha barriga. Acordei várias noites, ainda grávida, com a minha bebêzinha respondendo com remexos as longas conversas da vovó. Vocês duas sempre tiveram uma ligação especial. No pior dia dela no hospital, em pleno dia das mães, você sentiu de casa. E eu testemunhei. Enquanto os médicos lutavam para salvá-la, e eu ainda sem saber o que acontecia, você me abraçou aos prantos e só dizia "a Vovó...". Ainda me arrepio quando me lembro disso. Uma sempre sentia tudo pela outra. E isso era lindo. E todos sempre reconheceram isso e admiravam a ligação de vocês. Nunca se esqueça da sua mamãe-vovó, meu amor. Nunca se esqueça dos beijos e abraços dela. Nunca se esqueça daquele rosto sereno. E daquele sorriso especial que era só pra você. Como te disse, quando você estiver bem velhinha e Papai-do-Céu te levar, vai ter um lugar reservado na caminha da vovó e bem ao lado dela. Mas, meu amor, tenta entender, voltar ela não volta.... Mas ela vai estar te olhando lá do céu, de entre as nuvens e estrelinhas e usando as asinhas que ela ganhou de presente. Guarda esse amor e os ensinamentos dela e se torne a mulher linda e especial que ela sempre previu.